Dicas de Criação

MANEJO ANIMAL
Odontologia Eqüina
De cavalo, dado ou comprado, olham-se os dentes

Já faz algum tempo que os dentes dos cavalos deixaram de ser avaliados somente quando se queria saber a idade do animal. Os veterinários especializados eram escassos e os cursos de especialização no Brasil, inexistentes. Porém, hoje a Odontologia Veterinária vem ganhando a importância que sempre mereceu na saúde e até treinamento dos animais, sejam eles de esporte ou não. Já existem cursos de especialização no Brasil, embora quase toda a tecnologia seja estrangeira e também já existem profissionais capacitados para qualquer tipo de avaliação e tratamento dentário.

O cavalo nasce somente com alguns dentes pré-molares e, no decorrer seu desenvolvimento, os demais dentes vão erupcionando, num processo que continua por toda a vida do animal. Um eqüino adulto normal tem os incisivos que se tocam como torquês, sem sobreposição; arcada superior mais larga que a inferior, fazendo com que os molares superiores se posicionem tocando mais lateralmente os molares inferiores. Não há espaços entre os dentes, exceto entre os últimos incisivos e os caninos e entre os caninos e os primeiros pré-molares. Além disso, a mastigação acontece com excursão lateral da mandíbula, para um lado de cada vez e a mandíbula tem deslizamento rostro-caudal (para frente e para trás).

O distúrbio congênito (que já existe no recém-nascido) mais comum, ainda que seja raro, é a permanência da fenda palatina, que ocorre quando as duas lâminas de osso que formam o palato (“céu-da-boca”) não se fecham. Esse fechamento deve ocorrer ainda quando o potro está no ventre da égua. Quando isso não ocorre, a cavidade bucal tem comunicação direta com a cavidade nasal, o que não é incompatível com a vida, embora possa facilitar a instalação de doenças fatais, como uma pneumonia por aspiração do leite para os pulmões.

Os problemas adquiridos mais comuns são: de erupção, desgaste anormal e fraturas dos dentes, incidência dos dentes-de-lobo, problemas de oclusão. A incidência desses distúrbios varia de acordo com a idade, condições de manejo e raça dos animais.

Problemas de erupção podem ocorrer quando os dentes decíduos (dentes-de-leite), ficam retidos formando uma cápsula óssea acima do permanente, impedindo a erupção do mesmo. O tratamento indicado é a remoção, que deve ser feita por um profissional. Aqui uma questão importante: os cavalos também trocam os dentes, exceto os molares e caninos.

O desgaste anormal dos dentes leva à formação de ganchos, rampas, ondas e cantos. Essas formações dificultam a o deslizamento da mandíbula durante a mastigação. O animal tende a mastigar somente para um lado, e tem a digestibilidade dos alimentos prejudicada, perdendo peso. Além disso podem ser formar espículas ósseas (espinhos) que lesam a mucosa oral e língua. O tratamento é feito através do grosamento das imperfeições à medida que aparecem. Os procedimentos são feitos com brocas próprias para cada caso, com auxílio de um abridor de boca.

Dentes-de-lobo é a denominação que se dão aos primeiros pré-molares. Não se deve confundi-los com os caninos, presentes em todos os machos e em algumas fêmeas. Os primeiros pré-molares não têm importância na mastigação, estão localizados à frente dos dentes esmagadores (aqueles no fundo da boca), e existem na maioria dos cavalos principalmente na arcada superior. Tendem a ser grandes nos lusitanos mas, em geral, são apenas vestígios ósseos, sendo, comumente, pequenos nos PSI e quarto de milha. O maior problema causado pelos dentes-de-lobo é a resistência do animal à ação das rédeas pois há desconforto quando a embocadura toca neles. Costuma-se grosar o dente-de-lobo próximo à gengiva, mas em cavalos de alta performance o mais indicado é a extração. Nesses animais também é comum o aparamento da superfície dos pré-molares restantes para um melhor posicionamento da embocadura.

Os problemas de oclusão mais comuns ocorrem quando o cavalo não apresenta os incisivos se tocando como torquês, ou seja, a face cortante dos superiores exatamente em cima da face cortante dos inferiores. Fraturas de coroa dentária (parte visível do dente) também são comuns e podem desencadear um abscesso dentário e até abscesso facial ou sinusite. Outra fratura comum é a da mandíbula. Todos esses problemas podem ser resolvidos por um profissional especializado.

Problemas dentários podem causar distúrbios gastrintestinais, cólicas, perda de peso, problemas de coluna, traumas na mucosa bucal, traumas na língua, abscessos, fístulas faciais, sinusites, tumores e queda na performance.

Durante um exame clínico há aspectos importantes para avaliar a saúde bucal do cavalo. Deve ser observada a musculatura da cabeça e pescoço pois quando o cavalo tem dificuldade de mastigar para um dos lados a musculatura do outro lado tende a se desenvolver mais que o outro. A dificuldade na mastigação também pode ser verificada quando pedaços grandes de fibras vegetais são encontrados nas fezes.

O tamanho dos alimentos também é importante, assim como a quantidade de volumoso e pastagem. Quanto menor o tamanho dos alimentos maior o risco de problemas dentários, pois o tempo de mastigação é menor. Da mesma forma pouco verde na alimentação do cavalo dificulta do desgaste correto dos dentes, que ocorre quando os animais se alimentam de plantas que contêm sílica como as gramíneas.

A percussão dos seios paranasais pode ser útil para diagnóstico de sinusite de causa dental. Além dos métodos anteriores de verificação, o mais eficiente é a visualização e palpação direta nos dentes.

Para um diagnóstico de qualquer problema é fundamental a visita de um veterinário especializado. Esse profissional dispõe de técnica e equipamentos necessários para a análise e tratamento de qualquer distúrbio que esteja acometendo os dentes ou a cavidade oral dos eqüinos. Os profissionais veterinários dispõem de técnicas de exodontia, endodontia e ortodontia, inclusive com aparelhos ortodônticos, e podem indicar mudanças de manejo que previnam ou amenizem os problemas bucais e dentais. Já contam com uma entidade representativa, a Associação Brasileira de Odontologia Veterinária (ABOV), e, apesar de se concentrarem principalmente no eixo Rio – São Paulo, atendem os animais em propriedades por todo País.

Como se pode perceber, a boca e os dentes são suscetíveis de sofrer vários problemas, alguns deles graves. Com o desenvolvimento da Odontologia Veterinária, surgem tecnologias para manter a saúde bucal dos animais, e essas devem ser aplicadas de forma rotineira para manter o eqüino saudável como um todo. Assim, olhar os dentes e a boca, mesmo de um cavalo ganhado, não é mais sinal de rudez e sim respeito para com o mesmo. Não se deve esquecer que é pela boca que se dá o contato mais íntimo entre cavalo e cavaleiro e através dela que a montaria se doa por completo aos anseios e caprichos do ginete.

Alexandre Archanjo Carneiro
Graduando em Medicina Veterinária na Universidade de Brasília - UnB
Estagiário no Centro de Treinamento de Enduro Califórnia - DF
Haras Lumiar - DF
Hospital Escola de Grandes Animais - UnB
alex_archanjo@pop.com.br


Publicada em 11/08/04 - 4317 visitas

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